Bistrô da Poesia
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A minha bandeira não é vermelha. Mas o sangue que corre nas minhas veias é.

E é esse mesmo sangue que atravessa a história dos meus Ancestrais. Sangue de colonizadores e de colonizados. De homens e mulheres que chegaram a estas terras por caminhos tão diferentes. Alguns trazendo consigo o poder e a ambição. Outros, arrancados de suas terras, de suas famílias, de suas crenças e de sua liberdade, para serem escravizados em um dos capítulos mais sombrios da nossa história.

É o sangue de quem mandava e de quem obedecia. De quem possuía direitos e de quem sequer era reconhecido como gente.

É o sangue daqueles que resistiram quando resistir significava arriscar a própria vida.

E é também o sangue das mulheres que, durante séculos, foram tratadas como propriedades, silenciadas, impedidas de decidir sobre o próprio destino. Mulheres que precisaram lutar pelo direito de estudar, trabalhar, votar, existir para além dos papéis que lhes eram impostos.

Mulheres que ainda hoje enfrentam desigualdades, preconceitos e violências. Que precisam provar diariamente seu valor, sua capacidade e sua competência. Que recebem menos, são interrompidas, desacreditadas e, tantas vezes, assassinadas por aqueles que deveriam respeitá-las.

Quantas vidas ainda precisaremos perder para compreender que dignidade não deveria ser uma conquista, mas uma condição inerente à existência humana?

E, no entanto, aqui estamos.

Séculos depois, vivendo em um país que parece ter aprendido a transformar diferenças em inimizades.

De uns tempos para cá, tenho observado, com uma tristeza que não consigo disfarçar, o quanto nos tornamos intolerantes uns com os outros.

Famílias divididas. Amizades desfeitas. Pais e filhos que deixam de se falar. Irmãos que já não se sentam à mesma mesa. Pessoas que se conhecem e se amam há décadas, mas que passam a se tratar como inimigas porque escolheram caminhos políticos diferentes.

Desde quando pensar diferente se tornou motivo suficiente para deixar de amar?

Desde quando uma preferência partidária passou a valer mais do que os afetos construídos ao longo de uma vida?

Não consigo aceitar que a política, que deveria ser um instrumento de organização da sociedade e de construção do bem comum, seja transformada em um campo permanente de vingança, ressentimento e ódio.

E quero ser muito clara: não enxergo esta questão como uma simples disputa entre direita e esquerda.

Tenho minhas convicções. Tenho minhas críticas. E não escondo minha oposição à extrema direita, sobretudo quando reconheço em seus discursos e propostas ameaças a direitos, à diversidade, à liberdade e à convivência democrática.

Mas não confundo essa oposição com o desprezo pelas pessoas que pensam de maneira diferente de mim.

Porque ninguém deveria ser reduzido ao candidato em quem vota.

E porque não acredito que possamos construir um país mais justo reproduzindo o mesmo ódio que desejamos combater.

O que me inquieta, verdadeiramente, é pensar no futuro que estamos preparando.

Como permanecer indiferente diante de propostas que possam ampliar jornadas de trabalho já tão desgastantes ou enfraquecer direitos conquistados ao longo de gerações?

Direitos que não nasceram da generosidade dos poderosos.

Nasceram da organização, da resistência, das greves, dos sacrifícios e, muitas vezes, do sangue derramado por trabalhadores que ousaram reivindicar condições mais humanas.

Penso nas pessoas que saem de casa antes de o sol nascer e retornam quando seus filhos já estão dormindo. Nas mães que acumulam jornadas. Nos trabalhadores que atravessam a cidade por horas para receber salários que mal sustentam suas famílias.

Penso em quem limpa nossas casas, prepara nossas refeições, recolhe nosso lixo, transporta nossas mercadorias e mantém funcionando uma sociedade que, tantas vezes, sequer lhes agradece.

Talvez seja por isso que eu desconfie profundamente de quem maltrata o funcionário que lhe serve um café ou carrega sua bagagem.

A maneira como tratamos aqueles de quem não precisamos obter favores revela muito mais sobre nós do que qualquer discurso bonito.

E penso também na liberdade religiosa.

Na minha fé. Na fé dos meus irmãos. Na memória dos meus Ancestrais.

Penso nos povos que precisaram esconder seus Sagrados, disfarçar suas crenças e preservar seus fundamentos em silêncio para que suas tradições não desaparecessem.

Penso nos terreiros que ainda hoje enfrentam preconceito, ameaças e violência. Nos templos invadidos, nos objetos sagrados destruídos ou apreendidos em ações abusivas, nos atabaques silenciados pela intolerância.

É doloroso perceber que, depois de tantos séculos, ainda existam pessoas que se julgam no direito de determinar qual fé merece respeito.

Não desejo privilégios para a minha religião.

Desejo apenas que ninguém precise esconder suas guias, seus símbolos, seus cânticos ou sua devoção para viver em paz.

E esse direito precisa existir para todos, inclusive para aqueles cuja fé é diferente da minha.

Penso na saúde pública.

No Sistema Único de Saúde, com todas as suas dificuldades, carências e necessidades de aprimoramento. Um sistema que atende milhões de brasileiros e cuja importância se tornou ainda mais evidente durante a pandemia.

Quantas vidas dependeram de seus profissionais? Quantas famílias encontraram acolhimento nos hospitais públicos? Quantas pessoas receberam vacinas, medicamentos e cuidados que jamais poderiam custear?

Não ignoro os problemas do SUS. Justamente por reconhecer sua importância, preocupo-me com a possibilidade de cortes, abandono e sucateamento.

Porque adoecer não pode ser um privilégio de quem tem dinheiro para se tratar.

E a educação?

O que será das nossas crianças, dos nossos jovens, das universidades públicas, das políticas de acesso ao ensino superior?

Penso no ProUni, no Fies e em tantas oportunidades que permitiram a pessoas de famílias humildes imaginar futuros que antes pareciam impossíveis.

Preocupa-me qualquer proposta que possa restringir esse acesso ou transformar direitos essenciais em oportunidades reservadas a poucos.

A educação não deveria aprofundar as distâncias entre nós.

Deveria ajudar a diminuí-las.

Não sou contrária ao debate, à revisão de políticas públicas ou à busca de soluções melhores. Pelo contrário. Acredito que uma democracia saudável exige questionamentos, fiscalização e responsabilidade.

Mas quero compreender quem ganha, quem perde e quem será deixado para trás a cada decisão.

Porque, no fim das contas, é sempre sobre pessoas.

Pessoas de carne, osso, sonhos, medos e necessidades.

Pessoas cujo sangue tem a mesma cor.

E é aqui que volto ao princípio destas reflexões.

A minha bandeira não é vermelha.

Minha bandeira é verde, amarela, azul e branca.

Carrega, no centro, as palavras Ordem e Progresso.

E, embora eu saiba que a história do nosso país está longe de ser feita apenas de ordem ou de progresso, ainda encontro no verde dessa bandeira uma palavra que me acompanha desde sempre:

Esperança.

Esperança de que possamos discordar sem nos odiar.

De que possamos defender nossas convicções sem desumanizar quem pensa diferente.

De que a justiça não seja confundida com vingança, nem a liberdade com o direito de oprimir.

Esperança de que nossas crianças conheçam a história de seus Ancestrais, inclusive suas páginas mais dolorosas, para que não precisem repeti-las.

De que nossas mulheres possam viver sem medo.

De que nossos trabalhadores tenham direitos respeitados.

De que ninguém seja perseguido por sua fé.

De que a saúde, a educação e a dignidade humana permaneçam no centro das nossas preocupações.

E, acima de tudo, esperança de que saibamos preservar a democracia.

Essa democracia imperfeita, tantas vezes frustrante, mas indispensável à possibilidade de discordar, questionar, escolher e mudar os rumos do nosso país.

Uma democracia que não nos foi entregue de presente.

Foi reconquistada depois de um período de silêncio imposto, de perseguições, prisões, torturas, perdas e resistência.

Custou caro.

Custou lágrimas, juventudes interrompidas, famílias dilaceradas.

Custou sangue.

O mesmo sangue vermelho que corre nas minhas veias e nas veias daqueles que pensam como eu.

E também daqueles que não pensam.

Por isso, quando penso nas urnas, não penso apenas em partidos, cores ou ideologias.

Penso nas vidas que serão alcançadas pelas decisões tomadas em nosso nome.

Penso nos que vieram antes de nós e nos que ainda virão.

Penso na responsabilidade de não desperdiçar aquilo que tantas gerações lutaram para conquistar.

Não espero que todos concordem comigo. Nem desejo isso.

Desejo que possamos conversar, refletir, discordar e continuar nos reconhecendo como seres humanos.

Porque nenhuma vitória política será verdadeiramente uma vitória se, para alcançá-la, perdermos nossa capacidade de respeitar, acolher e amar.

Minha bandeira tem quatro cores.

Meu sangue tem apenas uma.

E minha esperança é que, um dia, compreendamos que o sangue dos nossos irmãos não pode continuar sendo o preço das nossas diferenças.

Akasha De Lioncourt
Enviado por Akasha De Lioncourt em 11/10/2026
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