Sim, eu visto branco.
Talvez alguém diga que nunca me viu assim. Que, durante anos, minhas roupas foram escuras, discretas, sóbrias. E estará certo. A profissão exigia essa aparência. A vida, muitas vezes, também.
Mas o branco que hoje visto não nasceu no guarda-roupa.
Nasceu muito antes, no silêncio das minhas inquietações, nas perguntas que eu fazia quando ninguém estava ouvindo, nas lágrimas que escondi, nas dores que me ensinaram que existe uma diferença entre sobreviver e realmente viver.
O branco chegou primeiro ao meu coração.
Depois, encontrou meu corpo.
Muitos imaginam que vestir branco é apenas seguir uma tradição religiosa. Para mim, é infinitamente mais do que isso.
É vestir um compromisso invisível.
Compromisso de vigiar minhas palavras antes de pronunciá-las.
De controlar meu orgulho antes que ele machuque alguém.
De oferecer perdão quando o ego insiste em cobrar justiça.
De aprender que a maior força que existe não é vencer uma discussão, mas vencer a si mesmo.
Sim, eu escolhi a Umbanda Sagrada para caminhar pela vida.
Escolhi acreditar no amor de Pai Olorum, na sabedoria dos Sagrados Orixás e no amparo daqueles que trabalham incessantemente pela evolução da humanidade.
Escolhi aprender com a coragem dos Caboclos.
Com a paciência infinita dos Pretos Velhos.
Com a alegria transformadora dos Erês.
Com a firmeza dos Boiadeiros.
Com a simplicidade dos Baianos.
Com a leveza dos Marinheiros.
Com a inteligência dos Malandros.
Com a beleza e a liberdade do Povo Cigano.
Cada linha espiritual me ensina um jeito diferente de amar, de servir e de enxergar o mundo.
Mas seria uma grande incoerência vestir branco apenas dentro do terreiro.
O verdadeiro branco começa quando termina a gira.
É quando ninguém está olhando.
É no trânsito.
No trabalho.
Dentro de casa.
Na maneira como tratamos quem nos serve um café.
Na paciência com quem pensa diferente.
Na honestidade quando seria mais fácil mentir.
Na coragem de pedir perdão.
Na humildade de reconhecer que ainda temos muito a aprender.
Porque o branco não torna ninguém santo.
Não apaga defeitos.
Não elimina vícios da alma.
Não impede quedas.
O branco apenas nos lembra, todos os dias, da direção que escolhemos seguir.
Há quem veja apenas uma roupa.
Eu vejo um espelho.
Quando visto branco, lembro que minhas atitudes precisam honrar aquilo que estou representando.
Lembro que nenhuma guia tem mais valor do que uma consciência tranquila.
Que nenhuma incorporação é maior do que um gesto de bondade.
Que nenhuma palavra bonita substitui um coração verdadeiramente disposto a servir.
Vestir branco é aceitar que a reforma íntima não termina nunca.
É compreender que a caridade não começa na cesta básica, nem termina no passe.
Ela começa na forma como olhamos para o outro.
Na delicadeza com que acolhemos uma dor.
Na capacidade de dividir o pão, o tempo, o abraço, o silêncio e até a esperança.
Vestir branco é aceitar que ainda erraremos muitas vezes.
Mas também é decidir levantar todas as vezes em que cairmos.
Sem orgulho.
Sem vaidade.
Sem desejar ser maior do que ninguém.
Apenas desejando ser melhor do que fomos ontem.
Por isso, quando alguém me pergunta por que visto branco, minha resposta já não cabe em uma única frase.
Eu visto branco porque escolhi caminhar em direção à luz, mesmo sabendo que ainda carrego sombras.
Visto branco porque acredito que o amor transforma aquilo que a força jamais conseguiria transformar.
Visto branco porque encontrei um lugar onde aprendi que Deus pode ser sentido no abraço, na oração, no passe, na mata, nas águas, na fumaça das ervas, no sorriso de uma criança e na palavra serena de um velho sábio.
Eu visto branco porque descobri que a fé não é um destino.
É um caminho.
E todos os dias, quando visto essa cor, lembro a mim mesma que ainda estou aprendendo a vestir, acima de tudo, a minha própria alma.